ARTHUR TIMÓTHEO DA COSTA: O RACISMO AINDA ESTÁ NA MODA
- Masp Mais

- 10 de mai. de 2020
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Atualizado: 31 de mai. de 2020
Em um simples olhar, a inocência de uma criança pode ser exposta junto a inúmeros sentimentos. Nele contém interpretações do mundo que só podem ser explicadas com o brilho contido. Mas um ato de injustiça pode escurece-lo e fazer com que permaneça somente em nossas memórias...
ARTHUR TIMÓTHEO DA COSTA
Nascido no Rio de Janeiro, Arthur cresceu em uma família pobre e numerosa. Desde muito novo iniciou os seus estudos na Casa da Moeda desenhando moedas e selos e, por meio do diretor do local, foi introduzido ao mundo das artes plásticas. Em 1894 ingressou, junto a seu irmão, na Escola Nacional de Belas Artes e com um certo tempo, conquista muitas oportunidades na Europa.
Suas pinceladas são marcadas pela aproximação do expressionismo quando utiliza o colorido dramático em suas obras, tendo uma preocupação oposta à cor e à textura, mas sim ao que expressava. O pintor, decorador e cenógrafo morre aos 41 anos, internado no Hospício dos Alienados do Rio de Janeiro, com diagnóstico de demência paralítica.
O MENINO (1917)
O Menino foi pintado após o regresso de Arthur Timótheo da Europa, em 1917

. Na obra há a expressão cabisbaixa de um menino, com um olhar tristonho e deslocado do observador. O que chama a atenção é a luminosidade sobre o rosto da criança com que o artista trabalha, refletindo a luz sobre os seus olhos. A paleta de cores é feita de beges e marrons-claros que permite o destaque do rosto do menino na tela.
Esse tratamento cheio de detalhes dá destaque à expressão do menino, fazendo uma alusão ao preconceito racial que, mesmo após a abo
lição, estava enraizado na sociedade brasileira. Pintar uma criança negra naquela época poderia ser entendido como gesto de enfrentamento em meio a uma sociedade que se estruturou sobre a exploração e a negação do negro como sujeito.
Arthur registrou em suas obras homens e mulheres, também negros, tanto em retratos quanto cenas de trabalho ou cenas do cotidiano como uma forma de representatividade negra na sociedade brasileira.
O RACISMO AINDA ESTÁ NA MODA
Mesmo após séculos da Abolição, o negro ainda é o alvo de uma sociedade preconceituosa. Dentre as diversas pessoas mortas injustamente, crianças são impedidas de terem uma vida digna e longa em decorrência dos tiros trocados em operações policiais.

JOÃO PEDRO, 14 ANOS
João Pedro foi morto dentro de casa, no complexo de favelas do Salgueiro (RJ), durante uma operação policial. Os agentes entraram e balearam o menino, alegando que houve um confronto e João foi atingido. Sua morte não foi revelada a família, que procurou desesperadamente pelos hospitais da região e acabou encontrando o corpo do menino no IML de São Gonçalo.

ÁGATHA FÉLIX, 8 ANOS
Ágatha estava em uma Kombi, no Complexo do Alemão (RJ), quando foi atingida nas costas por tiros de fuzil, após PM errar a mira quando atirou contra duas pessoas em uma moto que, segundo ele, se tratavam de traficantes de drogas do local. A menina foi levada às pressas ao hospital, mas não resistiu ao ferimento.

KAUÊ RIBEIRO, 12 ANOS
Kauê estava subindo a favela da Chica (RJ) com um amigo, quando foi baleado na cabeça por policiais depois de uma denúncia de roubo de carga.

KAUÃ VÍTOR, 11 ANOS
Já Kauã, foi morto por tiros durante um confronto entre policiais e suspeitos do bairro do Bangu (RJ). O menino ficou internado durante dias, mas também não resistiu.
A ESTATÍSTICA TEM COR
A terra natal de Arthur Timótheo era e é cenário de inúmeras violências no qual só prova que a estatística tem cor. O preto pobre continua sendo visto como alvo nas favelas do Rio de Janeiro e em diversas localidades do Brasil. O sangue é derramado de forma fria em decorrência de um tratamento desigual e preconceituoso.
Crianças como João Pedro, Ágatha, Kauê e Kauã perderam suas infâncias e o brilho no olhar que só a inocência permite ter, porque o racismo permanece enraizado na sociedade. O olhar da obra O Menino é exprimido em todas as famílias que são destruídas por confrontos que não têm fim, continua cabisbaixo, triste e deslocado.
Por Lara Gabrielli






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